Linguística em Diário

Este blog se constitui no registro diário de minhas leituras realizadas para a disciplina Interação Verbal ministrada pela prof. dra. Anna Rachel. A disciplina faz parte do mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) da PUC-SP.

2005-09-20

Resumo de texto de Luiz Antônio Marcuschi

ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO
Luiz Antônio Marcuschi

CAPÍTULO 1
No Brasil, pouco se sabe sobre o real funcionamento da língua portuguesa falada e sobre os processos conversacionais.
Razões para o estudo da conversação:
1º) ela é a prática social mais comum no dia a dia do ser humano;
2º) desenvolve um espaço privilegiado para a construção de identidades sociais no contexto real sendo uma das formas mais eficientes de controle social imediato;
3º) exige enorme coordenação de ações que exorbitam em muito a simples habilidade lingüística dos falantes.

- AC * década de 60 na linha da Etnometodologia e da Antropologia Cognitiva;
- Até meados dos anos 70 preocupou-se com a descrição das estruturas da conversação e seus mecanismos organizadores. Predominância dos estudos organizacionais;
- Hoje, AC preocupa-se com a especificação dos conhecimentos lingüísticos, paralingüísticos e sócio-culturais que devem ser partilhados para que a interação seja bem-sucedida. Esta perspectiva atinge os processos cooperativos presentes na atividade conversacional: o problema está na INTERPRETAÇÃO.
Resultados dessas perspectivas:
- é oferecida uma noção do tipo de atividade representada pela conversação e sua arquitetura geral mostrando que ela é um fenômeno altamente organizado e por isso mesmo passível de ser estudado com rigor científico;
- com essa organização mostra-se também, reflexo de um processo subjacente desenvolvido, percebido e utilizado pelos participantes da atividade comunicativa, assim, as decisões interpretativas dos interlocutores decorrem de informações contextuais e semânticas mutuamente construídas/ inferidas de pressupostos cognitivos, étnicos e culturais.
Dessa forma, temos como perguntas de pesquisa da AC:

ü COMO É QUE AS PESSOAS SE ENTENDEM AO CONVERSAR?
ü COMO SABEM QUE ESTÃO SE ENTENDENDO?
ü COMO SABEM QUE ESTÃO AGINDO COORDENADA E COOPERATIVAMENTE?
ü COMO USAM SEUS CONHECIMENTOS LINGÜÍSTICOS E OUTROS PARA CRIAR CONDIÇÕES ADEQUADASÀ COMPREENSÃO MÚTUA?
ü COMO CRIAM, DESENVOLVEM E RESOLVEM CONFLITOS INTERACIONAIS?

Para essa pesquisa utilizou-se o método da INDUÇÂO – parte de dados empíricos em situações reais. Este primado do empírico dá à AC uma vocação naturalística com poucas análises quantitativas, privilegiando as descrições e interpretações qualitativas.
A AC objetiva asserções universais e pretende chegar a um sistema de regras “livres de contexto” e “sensíveis ao contexto”.
ETNOMETODOLOGIA – trata da constituição da realidade do mundo do dia a dia e investiga as forma de as pessoas se apropriarem do conhecimento social e das ações; diz respeito à forma metódica de como os membros de uma sociedade aplicam aquele seu saber sociocultural.

O que é INTERAÇÂO? – é a ação ou a influência mútua entre as pessoas.

CAPÍTULO 3
Conversação é o gênero básico da interação humana e tem como características:
ü Interação entre pelo menos dois falantes;
ü Ocorrência de pelo menos uma troca de falantes;
ü Presença de uma seqüência de ações coordenadas;
ü Execução numa identidade temporal;
ü Envolvimento numa “interação centrada”.

Segundo H. Steger, distingue dois tipos de diálogos:
a) DIÁLOGOS ASSIMÉTRICOS: em que um dos participantes tem o direito de iniciar, orientar, dirigir e concluir a interação e exercer pressão sobre o(s) outro(s) participante(s). É o caso das entrevistas, inquéritos e da interação em sala de aula;
b) DIÁLOGOS SIMÉTRICOS: em que os vários participantes têm supostamente o mesmo direito à auto-escolha da palavra, do tema a tratar e de decidir sobre seu tempo. As conversações diárias e naturais são exemplos dessa modalidade.

CAPÍTULO 4
Para qualquer conversação espera-se:
a) troca de falantes recorre ou pelo menos ocorre;
b) qualquer turno, fala um de cada vez;
c) ocorrências com mais de um falante por vez são comuns, mas breves;
d) transições de um turno para outro sem intervalo e sem sobreposições são comuns;
e) a ordem dos turnos não é fixa;
f) o tamanho do turno não é fixo;
g) a extensão da conversação não é fixa nem previamente especificado;
h) o que cada falante dirá não é fixo nem previamente especificado;
i) a distribuição dos turnos não é fixa;
j) o número de participantes é variável;
k) a fala pode ser contínua ou descontínua;
l) são usadas técnicas de atribuição de turnos;
m) são empregadas diversas unidades construidoras de turno: lexema, sintagma, sentença, etc;
n) certos mecanismos de reparação resolvem falhas ou violações nas tomadas..

Este conjunto de propriedades transforma a tomada de turno numa operação básica da conversação e, o turno é um dos componentes centrais do modelo.
A conclusão de um turno pode dar-se a qualquer momento em que ocorra um LUGAR RELEVANTE PARA A TRANSIÇÃO. O turno é aquilo que um falante faz ou diz enquanto tem a palavra, inclui-se a possibilidade do silêncio. É difícil definir com precisão quando se constitui/ não um turno. O difícil é saber o que determina essa mudança e qual é o melhor momento para que ela ocorra.
Regra Geral da Conversação: FALA UM POR VEZ – a tomada de turno pode ser vista como mecanismo-chave para a organização estrutural da conversação.
Segundo S/S/J (1974), as técnicas e regras para a distribuição de turnos são:
TÉC. I – o falante corrente escolhe o próximo falante, e este toma a palavra iniciando o próximo turno;
TÉC. II – o falante corrente pára e o próximo falante obtém o turno pela auto-escolha.
As duas regras são:
REGRA I – para cada turno, a primeira troca de falante pode ocorrer se:
1.a) o falante corrente escolhe o próximo falante pela técnica1;
1.b) o falante corrente não usa a técnica1 de escolher o próximo, então qualquer participante da conversação pode auto-escolher-se como o próximo pela técnica2;
1.c) o falante corrente não escolhe o próximo e nenhum outro falante se auto-escolhe, então o falante corrente pode prosseguir falando.

REGRA II – se no primeiro lugar relevante para a troca de turno não ocorre nem 1.a), nem 1.b) e se dá 1.c), em que o falante corrente prossegue, então as Regras 1.a), 1.B0 e 1.c) reaplicam-se no próximo primeiro lugar relevante para a transição e, se esta não ocorrer, assim se procederá até que se opere a transição.

Quando ocorre FALAS SIMULTÂNEAS e as SOBREPOSIÇÕES, o sistema pode entrar em colapso. Na Regra 1.b) onde deve ocorrer a auto-escolha do próximo falante, apresenta maiores índices de falas simultâneas. No momento em que isso ocorre, alguns mecanismos reparadores de tomadas de turno aparecem:
a) MARCADORES METALINGÜÍSTICOS: “espera aí”; “deixe eu falar”; “é a minha vez”; “um momento minha gente”; entre outros;
b) PARADA PREMATURA DE UM FALANTE: um dos falantes que iniciaram o turno ao mesmo tempo desiste para que o outro continue;
c) MARCADORES PARALINGÜÍSTICOS: são recursos como um olhar incisivo, um momento com a mão ou outros sinais.

A SOBREPOSIÇÃO DE VOZES tem várias formas de ocorrer. A mais comum, é a que ocorre nos casos em que o ouvinte concorda, discorda do falante com pequenas produções: “sim”, “não”, “claro”, “ahã”, etc. Um dos casos mais comuns, se dá na passagem de um turno a outro.
HESITAÇÃO: pode ser um convite à tomada de turno. Elas servem como momentos de organização e planejamento interno do turno e dão tempo para o falante de se preparar. Geralmente, se manifestam por reduplicações de artigos, conjunções ou sons não lexicados = PEDIDOS DE SOCORRO.
PAUSAS: um silêncio após uma pergunta pode ser o desconhecimento da resposta ou, em outro caso um efeito retórico.
CORREÇÕES: esse mecanismo funciona como processo de edição ou auto-edição conversacional e contribui para organizar a conversação.
Pode-se estabelecer a seguinte tipologia geral para o mecanismo da correção:
a) AUTOCORREÇÃO AUTO-INICIADA: quando o próprio falante se corrige;
b) AUTOCORREÇÃO INICIADA PELO OUTRO: realizada pelo falante com a ajuda de outro;
c) CORREÇÃO PELO OUTRO E AUTO-INICIADA: o falante inicia a correção, mas quem a realiza é o outro;
d) CORREÇÃO PELO OUTRO E INICIADA PELO OUTRO: o falante comete um erro e quem o corrige é o outro.

CAPÍTULO 6
ESTRUTURA BÁSICA DA S SEQÜÊNCIAS CONVERSACIONAIS: temos a abertura (pode ser longa), o desenvolvimento e o fechamento (este é mais complexo no caso da conversa telefônica).
CAPÍTULO 7
MARCADORES CONVERSACIONAIS:
a) VERBAIS;
b) NÃO-VERBAIS = paralingüísticos;
c) SUPRA SEGMENTAIS = natureza lingüística – não verbal.
Quanto às suas funções, sevem de elo de ligação entre unidades comunicativas, de orientadores dos falantes entre si, etc.

CAPÍTULO 8
COERÊNCIA – é um processo global e implica interpretação mútua, local e coordenada. Serve-se de uma série enorme de recursos, tais como unidades lexicais, esteriótipos, marcadores, dispositivos não verbais, recursos supra-segmentais e muitos outros.
Existem três marcadores:
ü digressão;
ü quebra,;
ü aviso para o retorno a algo interrompido.
Diferença entre mudança e quebra:
- MUDANÇA: ocorre quando o tópico chegou ao fim, caracterizando seu término;
- QUEBRA: ocorre quando o tópico foi interrompido, podendo retornar.